Textos Antitrabalho #1

Ao longo de vários meses, num 2025 sem feriado e sem férias à vista, li vários textos sobre a “condição dos operários” ou perto disso. O fio que me arrastava a essas leituras é a ideia de que hoje em dia trabalha-se demais e sem necessidade. Se penso isso tendo um emprego tranquilíssimo em escala 5x2, fico imaginando o que pensa o peão médio, trabalhando, com sorte, em escala 6x1 por 8+N horas diárias, ouvindo desaforo das madames do RH e dos chefes sem noção, tudo isso por um ou dois salários mínimos.
No In Praise of Idleness de Bertrand Russel a tese é exatamente essa. Trabalhamos demais e há uma narrativa de virtude do trabalho que busca justificar esse excesso. Ele argumenta que a sociedade como um todo seria mais feliz e mais próspera se todos trabalhassem menos1.
Parece inconcebível pensar numa jornada de 6h diárias ou menor. Quem vai atender nas lojas, nos supermercados? Quem vai manter as fábricas funcionando? A solução proposta é bastante direta: contratar mais pessoas e reduzir a produção. O processos industriais tornaram-se mais eficientes e baratos ao longo dos anos, e a jornada de trabalho permaneceu a mesma. Ao contrário, aumentou-se a produção. E com o excesso de oferta no mercado, a concorrência faz com que diversas empresas fechem, gerando um excedente de desempregados. Se a produtividade fosse mantida, com menos horas trabalhadas, o cenário seria melhor para trabalhadores e empresários2.
No setor de serviços, por causa de uma visão absolutista do trabalho, o funcionário é obrigado a passar várias horas no posto mesmo sem nada pra fazer. A métrica é o tempo de disponibilidade e não a produtividade, mais um desperdício de tempo e dinheiro3.
E o que acontece com os desempregados? Neste ponto é mais minha opinião do que a do autor. Uma parte fica desempregada, não tem outro jeito. É o chamado exército reserva ou algo assim; no Brasil isso se traduz em informalidade. A outra parte consegue novas posições, talvez mais precárias do que a anterior. Enquanto isso uma outra porção dos trabalhadores é absorvida em empregos de mentirinha. É a professional-managerial class nos EUA, cujo equivalente também existe por aqui, embora menos numeroso. São trabalhos inúteis, puro leva-e-trás de papel (ou mais modernamente, mensagens no Slack), são os departamentos de RH, os departamentos de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), as agências de publicidade, os supervisores de supervisores — é uma boa parte do funcionalismo público e dos empregos de escritório.
O trabalho inútil também é fruto de um modo de pensar típico do nosso tempo: uma sanha por mudança e novidade frenéticas, sem descanso, as quais, no estágio atual, eu diria serem motivadas por alguma outra coisa que não o lucro. Simplesmente ficamos presos na roda e não pensamos muito no porquê4. Perdemos a conexão entre o trabalho e sua finalidade5.
Com uma jornada menor, teríamos tempo pra outras atividades, das obrigações rotineiras a projetos paralelos, negócios, estudo e, principalmente, um descanso restaurador que permita essa vida além do trabalho. Para Russel, é graças ao lazer, ao tempo livre, que as grandes conquistas da civilização foram possíveis, ainda que essa possibilidade estivesse restrita a uma diminuta classe dominante. Quantos maiores avanços não teríamos se mesmo 1% da população pudesse se dedicar ao seus interesses?
Um argumento comum contra a redução da jornada de trabalho é dizer que os empresários não conseguirão contratar mais pessoas e que as empresas vão quebrar. É uma preocupação justa. A solução é o governo reduzir a carga tributária e os encargos trabalhistas, nada mais óbvio. Não importa quão malvadão seja o capitalismo, ainda trabalhamos quase metade do ano só pra pagar imposto e, tapados ou não, a maioria dos empresários mal tem dinheiro pro giro de caixa.
Outro argumento é o risco de as pessoas não saberem o que fazer com o tempo livre. Talvez a criminalidade aumente, ou muitos percam tudo apostando no tigrinho por falta do que fazer. Porém concordo com o autor em que tudo isso é mais um sinal do nosso fracasso enquanto sociedade. As pessoas já tiveram muito mais tempo livre no passado, e elas sabiam empregá-lo bem6. As dificuldades iniciais, se surgirem de fato, podem ser entendidas como parte do processo de cura depois de séculos de doença social.
Em geral acho a abordagem de Russel bastante sensata. Enquanto não concordo com a forma como é exposta em alguns pontos, como ao afirmar a maximização do prazer como objetivo final, soando por demais utilitarista, a tese é autoevidente pra qualquer pessoa que já sentiu a própria vida se esvaindo ao ter uma rotina de trabalho típica pela primeira vez.
Minha outra discordância, embora paralela ao assunto do texto e um tanto pedante, é quando Russel compara a exploração do trabalho do pobre pelo rico à submissão da mulher e as restrições à sua sexualidade etc. As normas impostas sobre as mulheres eram injustas e muitas vezes arbitrárias, mas o autor peida ao reduzir a questão a mera disputa de poder. Hoje sabemos que a relação entre os sexos vai muito além de simples poder e desigualdade de gênero, como discute Louise Perry na obra “The Case Against Sexual Revolution”. O texto sugere várias vezes uma visão de mundo utilitarista e materialista por parte do autor. Se são ideias recorrentes na sua obra não sei dizer.
Outra leitura interessante foi o The Abolition of Work de Bob Black. Indo muito além do que Russel propõe, Bob Black afirma que o conceito de trabalho como temos hoje deveria ser abolido (!!!) em prol de uma visão lúdica do trabalho.
Os argumentos do autor se baseiam principalmente na ideia de que há uma degradação do trabalhador ao se submeter aos mandos e desmandos de outra pessoa, sendo o ambiente de trabalho algo semelhante a uma prisão. Ainda que o ambiente fosse melhor, não pode ser considerado algo humano alguém passar dias, meses e anos, oito horas por dia, fazendo a mesma coisa; isso mata a criatividade, a motivação, e cria uma legião de pessoas sem iniciativa e senso de si. As ideologias “pró-trabalhador” não ajudam, justamente por manterem o modelo de trabalho do sistema que pretendem destruir:
Marxists think we should be bossed by bureaucrats. Libertarians think we should be bossed by businessmen. Feminists don’t care which form bossing takes so long as the bosses are women. Clearly these ideology-mongers have serious differences over how to divvy up the spoils of power. Just as clearly, none of them have any objection to power as such and all of them want to keep us working.
Aqui ele mandou uma pedrada.
O autor também rejeita a ideia de lazer (o mesmo “leisure” do Russel), pois é entendido sempre como descanso em função do trabalho, e nunca se fala do trabalho em função do descanso. O ócio criativo deveria ser o objetivo final, a vida do trabalhador voltada para seus interesses, sendo o trabalho mera fonte de renda. Na verdade, o próprio termo “trabalhador” não faz muito sentido nessa visão.
Em muitos aspectos, o texto de Bob Black é semelhante ao de Russel, especialmente na crítica ao excesso de trabalho e na valorização do tempo livre. A diferença está na orientação anarquista e na análise mais aprofundada do poder e da divisão entre tempo livre e trabalho.
Eu sinceramente duvido que seja possível implementar o que ele sugere, mas são ideias com as quais concordo se aplicadas ao indivíduo. Ninguém gosta de trabalhar e tampouco de ficar desocupado.
Enfim, é bom ter em mente que argumentos consideram cenários hipotéticos. Na vida real tudo é mais complicado, e um dos erros das ideologias é se apegar demais à teoria e promover à força suas visões de paraíso na Terra. Dito isso, acredito que reduzir a jornada de trabalho, junto de uma redução dos impostos sobre pequenas e médias empresas, seria uma mudança gradual e simples o suficiente para que a sociedade pudesse se adaptar. Isso sem a necessidade de revoluções armadas, de destruição das instituições (por piores que sejam), de derramamento de sangue inocente, etc., como sugerem comunistas, anarquistas e tantos outros *istas por aí.
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I want to say, in all seriousness, that a great deal of harm is being done in the modern world by the belief in the virtuousness of work, and that the road to happiness and prosperity lies in an organized diminution of work. ↩︎
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The (Second World) War showed conclusively that by the scientific organization of production it is possible to keep modern populations in fair comfort on a small part of the working capacity of the modern world. If at the end of the War the scientific organization which had been created in order to liberate men for fighting and munition work had been preserved, and the hours of work had been cut down to four, all would have been well. Instead of that, the old chaos was restored, those whose work was demanded were made to work long hours, and the rest were left to starve as unemployed. ↩︎
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Why? Because work is a duty, and a man should not receive wages in proportion to what he has produced, but in proportion to his virtue as exemplified by his industry. ↩︎
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Essa ideia é bem explorada no “24/7, Capitalismo Tardio e os Fins do Sono” de Jonathan Crary. ↩︎
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It is this divorce between the individual and the social purpose of production that makes it so difficult for men to think clearly in a world in which profitmaking is the incentive to industry. ↩︎
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It will be said the while a little leisure is pleasant, men would not know how to fill their days if they had only four hours (of) work out of the twenty-four. In so far as this is true in the modern world it is a condemnation of our civilization; it would not have been true at any earlier period. There was formerly a capacity for light-heartedness and play which has been to some extent inhibited by the cult of efficiency. The modern man thinks that everything ought to be done for the sake of something else, and never for its own sake. ↩︎
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